Uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) revelou que quase 70% dos jovens brasileiros classificados como “nem-nem” inativos — aqueles que não estudam, não trabalham e também não procuram emprego — são mulheres. O estudo aponta que a principal razão associada a essa condição é a sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado não remunerado.
A dissertação intitulada “Nem-nem nem tanto: o trabalho de cuidado invisibilizado das meninas brasileiras” foi desenvolvida pela pesquisadora Karina Costa, sob orientação da professora Marcela Nogueira Ferrario, a partir da perspectiva da economia do cuidado, área que analisa os impactos do trabalho doméstico e das atividades de cuidado na reprodução das desigualdades sociais e de gênero.
A pesquisa utilizou microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes ao período entre 2017 e 2024. Segundo o levantamento, as mulheres representaram, em média, 69,69% dos jovens “nem-nem” inativos no período analisado.
Leia também
De acordo com o estudo, os afazeres domésticos e as tarefas de cuidado aparecem como o principal motivo para que essas jovens não busquem inserção no mercado de trabalho. Conforme destaca Karina Costa, muitas dessas mulheres deixam de procurar emprego porque já estão sobrecarregadas com atividades domésticas e cuidados familiares, ainda que esse trabalho não seja remunerado nem reconhecido formalmente.
A análise também identificou que realizar tarefas domésticas e de cuidado aumenta em até 19,5 pontos percentuais a probabilidade de mulheres jovens permanecerem na condição de “nem-nem” inativas.
As pesquisadoras ressaltam que há diferenças significativas entre homens e mulheres nessa condição. Entre os jovens do sexo masculino, a principal justificativa para não trabalhar está relacionada à falta de oportunidades de emprego. Já entre as mulheres predominam responsabilidades domésticas e familiares, como o cuidado de crianças, idosos e pessoas doentes.

O estudo ainda aponta forte relação entre vulnerabilidade social e a condição de inatividade. As maiores incidências foram observadas entre jovens de baixa renda, moradoras de áreas rurais e residentes das regiões Norte e Nordeste do país.
Segundo a professora Marcela Nogueira Ferrario, a ausência de políticas públicas e de infraestrutura social adequada contribui para a manutenção desse cenário. Entre os fatores citados estão a insuficiência de vagas em creches e a falta de serviços públicos de apoio às famílias.
Para as pesquisadoras, os resultados ajudam a ampliar o debate público sobre juventude, desigualdade social e divisão do trabalho de cuidado no Brasil. O estudo também destaca a importância da produção científica voltada à economia do cuidado e às desigualdades de gênero, além da utilização de bases públicas de dados para a formulação de políticas públicas.
Confira notícias de Foz do Iguaçu no Facebook do Diário de Foz e no Instagram do Diário de Foz
