Artista argentino de nascimento e iguaçuense por escolha deixou contribuição marcante para a identidade cultural da região de fronteira
O artista plástico Miguel Hachen morreu na manhã desta sexta-feira (28), em Foz do Iguaçu. Argentino de nascimento, Hachen construiu ao longo de décadas uma trajetória ligada à cultura, à identidade e à história do município e da região de fronteira.
Criador do movimento Neoguarani, o artista desenvolveu uma linguagem própria, marcada por referências à ancestralidade, à cultura guarani, à natureza e às características do território da Tríplice Fronteira.
Entre as obras mais conhecidas de Miguel Hachen está o mural “A Lenda das Cataratas”, localizado na Praça da Paz, em Foz do Iguaçu. A obra reúne elementos da história e da mitologia regional e se tornou parte do patrimônio cultural e visual da cidade.
A produção de Hachen também ultrapassou os limites do município e chegou a escolas, universidades e instituições de diferentes países. Uma de suas obras foi utilizada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), levando sua produção artística a estudantes de todo o país.
Ao longo de sua carreira, Hachen retratou em suas obras aspectos relacionados às memórias, à ancestralidade e à diversidade cultural de Foz do Iguaçu, cidade marcada pela convivência entre diferentes povos e culturas.
Miguel Hachen deixa a esposa, Hermenegilda Guzmán, os filhos Facundo Arandu e Tiare Hachen, além de familiares, amigos e uma trajetória marcada pela produção artística e pela valorização da identidade cultural de Foz do Iguaçu.
O legado do artista permanece em diferentes espaços de Foz do Iguaçu e integra a memória cultural de uma cidade marcada pela fronteira, pela diversidade e pelo encontro de diferentes culturas.
Nota de pesar de Gilmar Piolla:
Adeus, Miguel Hachen
Miguel Hachen, o mais genial dos meus amigos, resolveu partir hoje de manhã sem se despedir.
Artista iguaçuense por escolha e pertencimento, argentino de nascimento e guarani por identidade afetiva, Miguel criou o movimento Neoguarani e deixou seu nome inscrito na história cultural de Foz do Iguaçu e desta região de fronteira.
Sua obra está espalhada pela cidade e pela memória de quem aprendeu a enxergar este território também pelas cores, pelos símbolos e pelas formas que ele criou. Entre seus trabalhos mais emblemáticos está o mural A Lenda das Cataratas, na Praça da Paz, uma obra que traduz em arte a mitologia, a natureza e a identidade deste lugar.
O Neoguarani atravessou fronteiras muito maiores do que aquelas que o inspiraram. Tornou-se objeto de estudos em escolas e universidades de diferentes países, e Miguel chegou até ao Enem, em uma questão que levou seu trabalho a milhões de estudantes brasileiros.
Talvez por isso doesse tanto nele a sensação de nem sempre ser reconhecido, na mesma medida, pela cidade e pelo país que escolheu para viver, criar e chamar de seus.
Miguel tinha um olhar próprio sobre a fronteira. Via o que quase ninguém via. Transformava memória em imagem, ancestralidade em linguagem e a cultura desta fronteira em expressão artística.
Nas últimas semanas, continuávamos criando juntos. Ele estava desenhando a capa do meu próximo livro, Fronteira Adentro. Mais um daqueles encontros em que sua arte se misturava à amizade, aos cafés, às conversas e às ideias que nunca pareciam terminar.
Hoje, terminaram cedo demais.
Ficam as obras. Ficam as cores. Fica o sotaque inconfundível, a irreverência, a inteligência, as inquietações e tudo aquilo que Miguel espalhou por esta cidade que escolheu para viver e criar.
Meu amigo partiu sem se despedir.
Mas deixou sua assinatura por toda parte e, nela, continuará vivendo.
E quero acreditar que, em algum lugar, Miguel agora reencontra Vincent, seu outro filho, de quem a vida o separou cedo demais.
À Hermenegilda Guzmán, sua esposa, e aos filhos Facundo Arandu e Tiare Hachen, os meus profundos sentimentos.
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