Por Sergio Viralobos
Há 22 anos a Rádio Estação Primeira de Curitiba saía do ar. A emissora foi a primeira rádio paranaense voltada ao Rock, e ao público alvo jovem A B. Foi também a primeira a tocar as bandas locais, como o Ídolos de Matinee, Beijo AA Força, Blindagem, entre tantas outras.
Era uma emoção pra gente ouvir músicas compostas por nós e nossos amigos rolando no rádio. E acabou porque estava em crise administrativa, e havia sido vendida para o Grupo Inepar, que na época estava comprando empresas de diversos segmentos e acabou se atrapalhando até chegar à falência.
O slogan da Estação Primeira, na época, era “Uma rádio a frente do seu tempo”, frase que acabou se tornando realidade. Nos anos 1990 o mercado publicitário era pequeno, e não comportava uma rádio de público segmentado no rock. A emissora foi vendida por dificuldades econômicas, mas continuou na memória de seus fiéis ouvintes.
A inspiração para a criação da Estação Primeira veio de Niterói (RJ): a Fluminense FM, apelidada de “A Maldita”. Ela foi inaugurada em 1972 e na primeira década, transmitia corridas de cavalo. Em meados de 1981, a direção aceitou a reformulação da rádio, com a entrada da equipe formada pelos radialistas Amaury Santos e Sérgio Vasconcellos, comandados pelo jornalista Luiz Antonio Mello, todos à época beirando os 26/27 anos.
De início, Mello seria responsável por apenas um programa, que teria o nome de Rock Alive, mas conseguiu não somente ser aprovado pela audiência, como a façanha de transformar a Fluminense em uma rádio 24 horas dedicada ao rock. Deram oportunidade para bandas novas que surgiam no cenário nacional, entre as quais “Os Paralamas do Sucesso”, “Barão Vermelho”,” Titãs”,”Legião Urbana”, etc, etc, e ajudaram a escrever um capítulo importante na história do rock brasileiro.
Em 1982, tínhamos criado a “Contrabanda” e nosso empresário Fernando Tupan levou nossa fita cassete à “Maldita”, que tocou direto, por incrível que pareça. Tupan aprendeu ali que podíamos ter uma rádio do tipo em Curitiba e foi importante na história da Estação Primeira, como veremos adiante.
No dia 1º de março de 1982, às 6 horas, teve início uma mudança radical no meio radiofônico e musical brasileiro: a nova Fluminense FM entrou no ar, no dial 94.9 MHz, com uma locução exclusivamente feminina, sendo a locutora Selma Boiron a responsável pela inauguração da rádio.
A emissora também tinha problemas financeiros e, depois de 1985, sofreu a concorrência não só da rádio universitária Estácio FM, como também de rádios pop como Rádio Cidade e Transamérica, que nos anos 80 colocaram inserções de rock na programação, além de alguns programas que imitavam o perfil da Fluminense FM.
Em 1990, a rádio vira rádio pop e permanece assim por um ano. Em 1991, volta para o rock, mas em vez de seguir a linha marcante dos anos 80, preferiu adotar uma influência da MTV que desnorteou muitas emissoras de rádio voltadas ao rock, além de causar a invasão de muitas rádios de pop convencional ou mesmo “populares” no segmento rock, sem ter qualquer identificação natural com o segmento.
Essas rádios, puxadas pela 89 FM de São Paulo, adotavam uma programação que incluiu locução pop e repertório hit-parade de rock, aspectos nem sempre bem vistos pelo público roqueiro. O êxito comercial de várias dessas emissoras fez decair as rádios de rock originais, que tentaram competir com aquelas, influenciadas sobretudo pelo êxito comercial da 89 FM.
Em 30 de setembro de 1994, a Rádio Fluminense FM encerrou sua trajetória como rádio de rock, num irônico trocadilho com a frequência 94.9 (ano 94 e mês 9), dando lugar à primeira afiliada da Jovem Pan 2 FM no Rio de Janeiro, que durou até junho de 2000. Em meados de 2005 a rádio foi encerrada definitivamente, após o Grupo Fluminense fechar parceria com o Grupo Bandeirantes de Comunicação para o lançamento da BandNews FM Fluminense. Hoje o prefixo da Fluminense pertence a uma rádio evangélica.
Comentei com alguns amigos que estava escrevendo um artigo sobre a Estação Primeira e alguns dias depois, colocaram anonimamente uma carta por baixo da minha porta com este teor explosivo. Tenho uma leve desconfiança de quem seja o autor das bem traçadas linhas, mas não posso revelar uma fonte em off:
“A rádio Estação Primeira sem dúvida foi a emissora mais influente da história das ondas sonoras de Curitiba, do Paraná e do Brasil e influenciou diretamente os gostos musicais de uma geração, levando a capital do Paraná a ser chamada de Seattle brasileira, mas não pela onda grunge, mas pela efervescência musical. Sem dúvida, o principal responsável pela mudança radical da cidade do rock setentista e sessentista para oitentista com correntes punk, new wave, synthpop, dark foi o jornalista e músico Fernando Tupan.
Foi na Estação que pela primeira vez ouvi Joy Division, New Order, Depeche Mode, Duran Duran, Kraftwerk, Grace Jones, George Michael, Thompson Twins, Tears For Fears, Prince, Big Audio Dynamite, Pet Shop Boys, OMD, Erasure, Eurythmics, Soft Cell, Bronski Beat, Laurie Anderson, The Cure, David Bowie, Boy George, Devo, The B-52’s, 808 State, The Clash, U2, R,E.M., The Smiths, Echo & the Bunnymen, Public Image, My Bloody Valentine, Dinosaur Jr., Talking Heads, Violent Femmes, The Mission, Nine Inch Nails, Madness, Bad Manners, Mettalica, Guns and Roses, Jane’s Addiction, Misfits, Motörhead, Prefab Sprout, Bangels, Lloyd Cole and Commotions, Sade, Style Council, Joe Jackson, Philip Glass, Tom Waits, Spaceman 3, Galaxie 500, Sonic Youth, Fugazi, Cocteau Twins, The Stone Roses, Elvis Costello, Durutti Column, Kate Bush,The Jesus and Mary Chain, The Fall, The Go-Go’s, Pretenders, Sinéad O’Connor, Sugarcubes, Talk Talk, The Vapors, Hüsker Dü, The Replacements, Ramones, Black Flag, The Jam, Pixies, Nick Cave & the Bad Seeds, Throwing Muses, Siouxsie and the Banshees, Lucinda Williams, The Bodines, Queen Latifah, De La Soul, Primal Scream, Public Enemy, Eric B. & Rakim, Ice T, Run-D.M.C., Beastie Boys, INXS, Paul Simon, Leonard Cohen, The Church, Ira!, Edgard Scandurra, Picassos Falsos, Finis Africae, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, BAAF, Pós Meridion, Bons Garotos Vão Para o Inferno, Tessália, e Ídolos de Matinée, a mais importante banda da nova história escrita a partir da segunda metade dos anos 80.
Fernando Tupan foi a alma da Estação Primeira, responsável pela minha educação musical e de milhares de curitibanos, ele como programador e diretor artístico era totalmente oposto ao que o proprietário da rádio queria musicalmente para Curitiba na época: o conservadorismo de Baby Consuelo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, A Cor do Som, Blindagem, Rolling Stones, Grateful Dead, dinossauros do rock e em decadência musical há anos.
Arrisco a dizer que a Estação Primeira foi mais importante do que a 89 de São Paulo, que tocava muita baba musical, como Madonna e outros lixos musicais da época, para massificar o pop e rasgar outros estilos musicais brasileiros. A rádio não chegou a completar 10 anos de idade, morreu bem antes disso para virar uma emissora de notícias.
Arrisco a dizer que a Estação Primeira foi mais importante do que a 89 de São Paulo que tocava muita baba musical, como Madonna e outros lixos musicais da época, para massificar o pop e rasgar outros estilos musicais brasileiros.
Sim, a rádio curitibana está morrendo, agoniza há anos, cada vez menos pessoas escutam e os grandes responsáveis são as rádios na web, o Youtube, o Soundcloud e outras plataformas de divulgação lançando novidades todos os dias e o que é melhor, sem as repetições irritantes dos péssimos programadores da cidade.
Depois da saída de Tupan, a Estação Primeira começou a se tornar chata e repetitiva, não encontrou nenhum outro descobridor de pérolas musicais. Em diversos momentos da programação você se sentia em Londres, como se tivesse ouvindo a BBC 6 nos melhores momentos, ou a WZBC de Boston.
A mais importante rádio da história da cidade poderia ter continuado, tivemos outras rádios que repetiram a fórmula e as músicas lançadas entre 1985 a 1991, e até hoje temos reencarnações musicais do gosto de Fernando Tupan na “oldie” Mundo Livre.
Sim, a rádio curitibana está morrendo, agoniza há anos, cada vez menos pessoas escutam e os grandes responsáveis são as rádios na web, o Youtube, o Soundcloud e outras plataformas de divulgação lançando novidades todos os dias e o que é melhor, sem as repetições irritantes dos péssimos programadores da cidade.
Fernando Tupan passou também pela Rádio Educativa em 2011, onde colocou as ideias musicais dele na mesa, mas perdeu a batalha para os reacionários da MPB, que não aceitavam mostrar a real identidade e a vocação da música curitibana: o rock and roll, atrasando o mercado para a cultura paranaense em pelo menos 15 anos.
Mas vamos voltar ao que interessa, se for para comparar a importância da Estação Primeira eu falaria que ela poderia ter contribuído mais para transformar a cidade, assim como a péssima Rádio Educativa, mais preocupada em mainstream e velharias do que impulsionar o mercado musical da cidade.
Sinto saudades do gosto eclético musical do grande Fernando Tupan, hoje, o mais importante jornalista político do Paraná, e torço para ele desistir de falar de Lula e Bolsonaro, de Ratinho Junior e Alexandre Curi, de Rafael Greca e Ney Leprevost, e volte para o rádio, onde ele revolucionou o segmento, para reescrever uma nova história.”
* Sergio Virallobos é poeta, bancário aposentado e atualmente é colunista da Frente Fria, no Hoje Paraná
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