Além dos 15 anos de sua fundação, em abril próximo a Unila vai celebrar o centenário da Coluna Prestes em Foz do Iguaçu (1925-2025). Ambas as datas têm profundo significado histórico na formação do município.
Há 100 anos, a Coluna Prestes partiu de nossa cidade, com armas na mão, e percorreu o país combatendo as oligarquias da República Velha. Ela jamais foi vencida pelas tropas do governo, tendo percorrido 25 mil quilômetros do território nacional até exilar-se na Bolívia, em 1927.
Liderados por Luiz Carlos Prestes e Miguel Costa, dentre outros valentes revoltosos, os destemidos tenentes lutavam pelo voto secreto, o ensino público obrigatório e a reforma agrária.
Essas bandeiras permanecem atuais porque as condições socioeconômicas que as geraram não foram substancialmente alteradas.
O latifúndio, o autoritarismo e a concentração de renda, enfrentados pelos revoltosos de ontem, seguem atormentando a sociedade brasileira de hoje. Agora acrescidas da crise climática, da miséria das periferias urbanas, do extermínio da população negra, da violência contra as mulheres e a ascensão de múltiplas intolerâncias. A chama, portanto, ainda arde!
As armas das ideias
Ao ser criada, em 2010, a Unila agregou àquelas bandeiras tenentistas o ideal da integração ampla e soberana da América Latina. Porém, com uma diferença essencial: a opção pelas armas de fogo dos tenentistas do século passado foi substituída pela escolha das armas das ideias de jovens estudantes do século 21 como condição de superação do nosso atraso secular.
De fato, a educação, a ciência e a cultura para todos e todas tornaram-se a ferramenta crucial de emancipação e integração dos povos latino- americanos, conforme encontra-se estabelecido, aliás, na lei que criou a Unila em 2010.
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Celebrar portanto o debut desta universidade pioneira e imprescindível compreende igualmente recuperar a memória e a identidade de nossa cidade, que não é feita somente da paisagem natural, mundialmente admirada, mas também pela dimensão humana da gente que por aqui passou e lutou.
Todos e todas: os povos originários das nações Guarani e Kaingang, os descentes europeus, os obrageiros, os trabalhadores escravizados nos ervais e nas centenas de portos entre Guaíra e Foz do Iguaçu.
Celebrações.
Aberta ao público universitário, às escolas de ensino médio da fronteira trinacional e à população em geral, a Unila abrigará no próximo mês de abril um conjunto de atividades acadêmicas, artísticas e culturais celebrativas do centenário da Coluna Prestes em Foz do Iguaçu.
Dentre as várias atividades previstas na programação, destacam-se o Ciclo de Debates “Coluna Prestes: a chama ainda arde”, que terá na Abertura a presença da reitora da Unila, professora Diana Araújo, e palestra proferida por Anita Leocadio Prestes, filha do Cavaleiro da Esperança, que é como o seu pai foi imortalizado pelo escritor Jorge Amado, intitulada “100 Anos da Coluna Prestes: A Coluna Hoje”.
Professores e professoras pesquisadoras da Unila e de outras instituições de ensino, como Maria Clara Spada de Castro, estarão igualmente presentes. Ela é autora do livro “Para alem dos tenentes” sobre a revolta de 1924 em São Paulo”.
Também merecem destaque as Exposições Iconográficas e de Recuperação histórica da passagem da Coluna Prestes por Foz do Iguaçu. A primeira, reúne retratos originais, recolhidos da Biblioteca Digital Nacional e da Biblioteca Digital Luso Brasileira, sobre a chegada dos revoltosos em Guaíra até o seu desembarque em Foz do Iguaçu, onde os comandantes das tropas paulistas e gaúchas se reuniram antes de prosseguir a marcha pelo interior do país. Denominada “Entre Águas e Esquecimentos”, ela é fruto de um trabalho de pesquisa realizado pelos estudantes de graduação a Unila que vem há um ano participando deste projeto.
A exposição de Recuperação histórica, intitulada “A serpente luminosa e o dragão da maldade”, que será igualmente aberta ao público em geral, é fruto de uma parceria inédita do Curso de Ciência Política e Sociologia da Unila com a Fundação Maurício Grabois, do PcdoB. Ela será aberta por Ana Prestes Rabelo, neta de Luiz Carlos Prestes, que virá especialmente a Foz do Iguaçu com essa finalidade.
Também serão realizadas visitas a campo, em Santa Helena e Catanduvas, onde encontram-se marcos de memória da passagem da Coluna pelo Oeste do Paraná. Murais construídos por artistas latino- americanos serão expostos durante os eventos. Lançamentos de livros, história em quadrinhos, apresentações musicais e performances artísticas, compõem o conjunto da programação ao longo mês de abril.
Finalmente, no dia 23 de maio, encerrando a programação geral, teremos a satisfação de receber o líder histórico do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o economista João Pedro Stédile, que fará uma palestra intitulada “Nas trilhas da Coluna Prestes: 100 anos de luta pela terra no Brasil”. Para ver toda a programação dos eventos utilize o QR Code no final dessa matéria.
Sítio de memórias
Por iniciativa do gabinete da Vereadora Valentia, ex-aluna da Unila, propomos a discussão de um projeto de lei municipal com vistas a criação de um espaço de memória da Coluna Prestes em Foz do Iguaçu. Em breve terá lugar uma reunião social dos apoiadores da iniciativa, com participação de representantes da sociedade civil, com vistas a cumprir os ritos na Câmara Municipal para aprovação da matéria.
Além do cunho educacional e cultural que reveste a iniciativa, sua aprovação pode render benefícios econômicos à cidade, oferecendo aos turistas que visitam Foz do Iguaçu por conta de suas belezas naturais, atrações culturais e educacionais que os mantenham por mais tempo por aqui.
Homenagem
Por fim, e em paralelo a todas as iniciativas anteriormente mencionadas, promoveremos a discussão sobre a relação entre Universidade e Direitos Humanos. Para além de conferências acadêmicas sobre este importante tema, recentemente visibilizado pelo reconhecimento internacional ao filme Ainda Estou Aqui, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2025, desejamos sensibilizar a sociedade civil iguaçuense sobre a sua atualidade.
Por isso propomos à Unila definir as diretrizes de uma política voltada para reconhecer e homenagear com o título de Doutor Honoris Causa aqueles cidadãos e cidadãs de nossa fronteira trinacional que se destacam pela defesa dos direitos humanos e a recuperação de memória como ferramentas de justiça social.
Acervos especializados se dedicam a instauração de uma justiça de transição restauradora dos direitos de dezenas, centenas e milhares de famílias cujas vidas foram interrompidas nos anos de chumbo, como revelado no filme de Walter Sales. É fundamental para as gerações futuras que a Universidade reconheça, abrigue e valorize esse trabalho. Homenageá-los é uma tarefa urgente que concerne a todos nós.
Profa. Dra. Danielle Araújo, Antropologia, Unila
Profa. Dra. Lucimara Flávio dos Reis, Ciência Política e Sociologia, Unila Jornalista Aluízio Ferreira Palmar, Ativista de Direitos Humanos
Prof. Dr. José Renato Vieira Martins, Ciência Política e Sociologia, Unila