Egressos do curso de Cinema e Audiovisual da UNILA impulsionam a cinematografia latino-americana

Com longas-metragens, cinematecas e circulação em festivais internacionais, a atuação de graduados da universidade latinoamericana, situada em Foz do Iguaçu, contribui para a produção audiovisual na fronteira e no mundo

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"Vila Pérola" retrata as relações afetivas, a histórica economia dos sacoleiros e a cultura da "muamba" na região da Ponte da Amizade. Foto: Divulgação

Entre as periferias, o tapete vermelho de Cannes e a Tríplice Fronteira, várias notícias positivas chegaram à UNILA recentemente. Elas refletem as diversas frentes assumidas pelos profissionais formados pelo curso de Cinema e Audiovisual da instituição. As trajetórias dos egressos incluem desde a produção cinematográfica até ações de construção de acervos para preservação da memória e a circulação por mercados e feiras em festivais internacionais.

Para Francieli Rebelatto, professora do curso, esse cenário demonstra a importância da formação audiovisual dentro da perspectiva latino-americana, e também o impacto da UNILA ao unir múltiplas realidades para fortalecer e lançar novas narrativas no cinema regional e internacional. “O curso de Cinema e Audiovisual tem plantado sementes que se expressam tanto na produção cinematográfica quanto em espaços como cineclubes, mostras, festivais de cinema, na construção de políticas públicas e, ainda, na atuação na pós-graduação e na pesquisa, dentre outras frentes”, afirma a docente.

Conheça algumas dessas ações de egressos que têm projetado a fronteira trinacional e a UNILA no mapa do cinema nacional e internacional.

Cinema fronteiriço
No último mês, a fronteira esteve movimentada com a produção cinematográfica de “Vila Pérola” realizada pela produtora Três Margens, empresa fundada pelos egressos da terceira turma do curso de Cinema da UNILA, Felipe Lovo e Maurício Ferreira. A ideia do filme surgiu das memórias do diretor Felipe Lovo, que há dez anos viajava com grupos de sacoleiros para visitar a família em São Paulo. Ele partia do bairro Vila Pérola, antigo ponto de referência para ônibus fretados de todo o Brasil.

Ambientado na divisa entre Brasil, Paraguai e Argentina, a produção busca consolidar Foz do Iguaçu como polo audiovisual, destacando a fronteira não apenas como cenário, mas também como narrativa. O longa, que tem cerca de 90 minutos de duração, retrata as relações afetivas, a histórica economia dos sacoleiros e a cultura da “muamba” na região da Ponte da Amizade que colocou Foz do Iguaçu como um dos maiores corredores populares de comércio informal do país. O enredo acompanha o cotidiano de duas famílias vizinhas em meio a esse comércio, abordando ascensão social, conflitos familiares e relações afetivas LGBTQIA+.

Vila Pérola é o primeiro longa-metragem dirigido e roteirizado por Felipe Lovo, sendo a maior produção já realizada em Foz do Iguaçu. Com ritmo intenso de gravações e diárias em locações no Brasil e no Paraguai, a equipe do filme movimentou mais de 200 pessoas. Entre os profissionais locais, estavam muitos egressos e estudantes de Cinema da UNILA. Além disso, as filmagens duraram cinco semanas e impulsionaram a economia da cidade. Com lançamento previsto para 2027, o longa promete projetar a região levando histórias locais às telas. A produtora de Lovo e Ferreira também é responsável pelo Festival Latino-Americano de Cinema 3 Margens que acontece anualmente em Foz do Iguaçu.

Esta não é a primeira vez que a fronteira é tema da produção de cineastas formados pela instituição. Em 2025, o curta-metragem Fronteiriza, do egresso Nay Mendl, circulou por diversos festivais do Brasil, do Paraguai e por eventos locais. Com roteiro e projeto desenvolvidos como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na UNILA, o filme narra a história de Lucca, um jovem homem trans da periferia de São Paulo que viaja até a fronteira em busca do pai que nunca conheceu. Ao chegar, conhece Diego, um paraguaio que vive na região e o apresenta ao local de uma forma que Lucca jamais imaginou. Juntos, eles descobrem semelhanças e diferenças em seus modos de vida que vão além dos binarismos de gênero, identidade e território.

O curta estreou no Festival Olhar de Cinema em 2025, onde recebeu o prêmio de melhor curta-metragem. Foi selecionado para diversos eventos, como o Festival Internacional de Curtas de São Paulo, a Mostra de Cinema de Tiradentes e, internacionalmente, o Festival Internacional de Cine Contemporáneo de Asunción. O filme foi exibido em Foz do Iguaçu dentro da programação do Festival Latino-Americano de Cinema 3 Margens e da Mostra Arder en La Frontera. Ambos os eventos, também criados e realizados por formados na UNILA.

Outro destaque na produção audiovisual regional é o documentário Bruxa do Oeste, da cineasta graduada no curso de Cinema Lara Sorbille. Com roteiro desenvolvido como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em 2021, o documentário performático resgata a memória e a trajetória de Maria Luiza Alves Carvalho e de outras “bruxas” do oeste paranaense, mostrando de forma lúdica a força de transformar a realidade ao seu redor. O projeto nasceu de quatro videoperformances realizadas em 2022 que, juntas, somam um corte de 58 minutos. A obra também foi semifinalista do Laboratório de Desenvolvimento de Projetos de Longas Documentais e participou do LatAm Content Meeting. Após esse reconhecimento em laboratórios de mercado, o projeto agora está em fase de captação de recursos para se tornar um longa-metragem.

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Mercados e acervos
Em maio de 2026, o Mercado de Filmes em Cannes (Marché du Film) proporcionou o encontro entre as egressas Ana Clara Martins e Larissa Barbosa e o egresso Nay Mendl, que apresentaram diferentes filmes e projetos nesse espaço de negócios. O Festival de Cannes promove o Marché du Film é considerado o maior mercado cinematográfico do mundo. Enquanto ocorre a exibição de obras artísticas e a competição de prêmios no festival principal, o Marché funciona como uma feira de negócios paralela. O evento reúne anualmente milhares de profissionais da indústria, incluindo produtores, distribuidores, compradores e agentes de vendas, para negociar, financiar e promover filmes.

Ana Clara e Larissa, representantes da produtora Moringa Filmes, chegaram ao evento com o longa Oceânica e o curta-metragem Feito Tatu. Já Nay Mendl, ao lado de Rosa Caldeira pela produtora Maloka Filmes, levou o projeto The Sea Remains. Em Cannes, apresentaram seus projetos em desenvolvimento com a finalidade de encontrar parceiros para coprodução internacional, distribuição e financiamento das obras.

Também participaram do mercado internacional, por meio do catálogo do Crie do Sebrae, as egressas Stheffany Fernanda, com o longa-metragem Sou uma, mas não sou só, e Camila Coradette, com o projeto Emoções Invisíveis. A missão do Crie Sebrae no festival busca promover produtoras independentes brasileiras no mercado global. O catálogo reúne projetos de destaque selecionados para circular, co-produzir e fechar negócios com parceiros internacionais.

Stheffany Fernanda, além de integrar o grupo de cineastas em Cannes, atua na periferia de São Paulo com a produtora 609 Filmes. Ela lançou recentemente, junto a outros jovens realizadores, o projeto Cinemateca da Quebrada, um espaço destinado a mapear e preservar a produção realizada nas periferias brasileiras. Em abril, o grupo realizou o 1º Fórum Internacional do Cinema da Quebrada.

Produção docente
Os docentes do curso também contribuem com o fortalecimento da cinematografia regional. Além das ações em ensino, pesquisa e extensão, o corpo docente defende a importância da produção artística como um processo inerente à formação universitária. O coordenador do curso, Fábio Ramalho, estreará seu novo filme, Cerimônia, na mostra competitiva de curtas-metragens brasileiros do Festival Internacional Olhar de Cinema, que ocorre em junho, em Curitiba.

Já o professor Bernardo Teodorico está no processo de montagem de um longa-metragem e na finalização de dois curtas-metragens. As obras são dirigidas em conjunto com o coletivo Tupã Kueraema, formado por integrantes Guarani da tekoa Mbaraka Poty, em Puerto Iguazú, cuja formação em cinema teve início em um projeto de extensão da UNILA.

Os filmes contam também com a colaboração dos docentes Eduardo Dias da Fonseca, na produção, e Virginia Osório Flores, na montagem.

A professora Francieli Rebelatto, por sua vez, está na fase de desenvolvimento de seu segundo longa-metragem, Travessias. A produção repete a prática de integrar docentes, egressos e estudantes do curso na equipe, como é o caso de Ester Marçal Fér, que atua na assessoria de roteiro. O filme integra o projeto de pesquisa “Ñanduti Cine: laboratório de pesquisa, experimentação e inovação em Cinema e Audiovisual”, no qual diferentes processos de criação cinematográfica são debatidos e acompanhados na relação intrínseca entre ensino, pesquisa e extensão.


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