Começou, dizem, com a invasão da Venezuela. Ou melhor: com a libertação preventiva da Venezuela — porque, como todo mundo sabe, quando um fuzileiro desembarca é sempre em nome da liberdade, nunca do petróleo, jamais da geografia e muito menos do mapa-múndi pendurado atrás da mesa do Pentágono.
A cena é clássica: porta-aviões estacionado como quem para em vaga de idoso, discursos inflamados sobre democracia tropical e uma pressa curiosa em salvar povos que ninguém lembrava até anteontem. Caracas virou, de repente, o centro moral do planeta. Quem diria.
Mas o mundo, esse velho malandro, não funciona mais em linha reta. Funciona em troca. E enquanto os holofotes iluminam o Caribe, alguém lá do outro lado do planeta assina papéis com caneta de tinta grossa e sorriso fino.
Porque, veja bem, enquanto a Venezuela vira manchete, a Ucrânia vira rodapé. Um rodapé grande, é verdade — com direito a notas de rodapé dentro do rodapé. E nessas letras miúdas vai ficando tudo mais simples: áreas “conflagradas” passam a ser áreas “definitivas”, fronteiras deixam de ser linhas e viram sugestões, e a Crimeia — essa velha conhecida dos mapas rasgados — reaparece como quem nunca saiu do lugar.
Os russos, dizem, ficam com o que já estavam sentados em cima. Sentar, afinal, sempre foi a forma mais eficaz de diplomacia territorial. Quem senta primeiro, explica depois.
Os chineses observam em silêncio, como quem aprende truque novo no bar. Tomam nota mental: interessante isso de precedentes. Taiwan, ali na esquina do Pacífico, começa a parecer menos ilha e mais parágrafo pendente.
E os americanos? Ah, os americanos fazem o que sempre fizeram melhor: criam o incêndio de um lado para esquentar o acordo do outro. A geopolítica moderna não é xadrez, é churrasco. Enquanto todos discutem a fumaça, alguém já virou a carne.
No fundo, ninguém está exatamente errado. Só estão todos… coerentes. Cada um defendendo seus valores universais particulares, seus mapas emocionais e seus interesses inegociavelmente negociáveis.
O mundo segue assim: um grande condomínio onde todo mundo reclama do barulho do vizinho, mas adora reformar a própria sala às três da manhã. E nós, do lado de fora, assistimos pela TV como quem vê novela ruim — reclamando do roteiro, mas sem perder o capítulo.
No fim das contas, a Venezuela é só o episódio da semana. A Ucrânia, o arco narrativo. Taiwan, o spoiler que ninguém finge não conhecer. E a tal da ordem mundial? Essa já foi cancelada, mas continua no ar em reprise, porque ainda dá audiência.
E como toda boa crônica, nada disso é previsão.
É só observação.
Daquelas que não acertam os fatos,
mas costumam reconhecer o cheiro.
Nello Morlotti
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