Política e sociedade

O estagiário de Deus

Outro dia ouvi um sujeito dizer que a inteligência artificial vai acabar com todos os empregos.

emprego e ia
Imagem meramente ilustrativa: Diário de Foz/Meta AI

Disse isso com a solenidade de um profeta do Velho Testamento e a tranquilidade de quem jamais soube configurar uma impressora Wi-Fi.

Pensei imediatamente no caixa do supermercado aqui no Maranhao, na moça do espetinho, no açougueiro afiando a faca às seis da manhã e no sujeito que vende carregador de celular na calçada enquanto escuta Pablo no último volume. Nenhum deles parece particularmente preocupado com algoritmos da Califórnia. O medo deles continua sendo o velho pacote premium da humanidade: inflação, gasolina, aluguel e carnê vencido.

Mas alguma coisa mudou.

O mundo anda com cheiro de pane elétrica antes da chuva.

A revista The Economist desta semana parece escrita por um roteirista deprimido de ficção científica: Inglaterra ingovernável, petróleo ameaçado, populismos raivosos, China, guerra, IA, desemprego, colapso social. O curioso é que tudo isso convive ao mesmo tempo com vídeos de receitas de carbonara e influencers ensinando “como manifestar abundância”.

A humanidade talvez esteja entrando naquela fase clássica dos filmes de Scorsese em que a música continua tocando enquanto o cassino pega fogo.

No Brasil seguimos discutindo Lula e Bolsonaro como dois velhos síndicos brigando pelo controle do salão de festas enquanto, discretamente, engenheiros computacionais criam entidades capazes de escrever poemas, programar sistemas, desenhar prédios e talvez até produzir sermões evangélicos melhores que muitos pastores televisivos.

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Outro dia vi uma IA produzir uma imagem renascentista de um porco Duroc tomando vinho Barolo. Honestamente? Pasolini teria achado aquilo genial.

A grande ironia é que sempre acreditamos que as máquinas roubariam o trabalho pesado. Mas elas começaram justamente pelo contrário: querem tomar o trabalho intelectual, artístico, burocrático. O peão da obra ainda resiste mais que o analista de PowerPoint.

Nietzsche talvez gargalhasse vendo isso. Passamos séculos acreditando que a racionalidade nos tornaria quase deuses. Agora criamos uma máquina racional e começamos a suspeitar que talvez fôssemos apenas estagiários de Deus preenchendo planilhas existenciais.

Enquanto isso, no Maranhao, alguém continua pedindo “dois quilos de costelinha e uma Coca retornável”.

E talvez exista alguma esperança nisso.

Porque o ser humano não vive apenas de eficiência. Vive de conversa atravessada, de churrasco mal calculado, de música ruim tocando alto demais, de política discutida em mesa de plástico e de receitas feitas “no olho”.

A IA provavelmente jamais entenderá completamente o prazer de um vinho italiano barato tomado numa terça-feira qualquer enquanto alguém fala besteira sobre futebol e filosofia ao mesmo tempo.

Talvez seja justamente aí que sobreviveremos.

Não na produtividade.

Mas na imperfeição.

Por Nello Morlotti


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