Política e sociedade

O Fiscal do Afeto!

O Fiscal do Afeto e a Inflação Moral

fiscal do afeto
Imagem meramente ilustrativa (Créditos: depositphotos.com / djedzura)

Por Nello Morlotti

Brasília sempre teve seus fiscais. Uns de gravata, outros de prancheta, alguns de toga — e, em momentos históricos mais ousados, até fiscais improvisados, surgidos do nada, movidos por uma indignação súbita contra o aumento de preços.

Nos tempos do Plano Cruzado, o país acreditou, por alguns meses, que a inflação poderia ser contida no grito. Donas de casa viraram fiscais, supermercados viraram trincheiras e o brasileiro, por um breve instante, sentiu-se parte de uma epopeia econômica. Era bonito. Ingênuo, mas bonito.

Décadas depois, o Brasil evoluiu. Sofisticou-se. Refinou seus mecanismos de controle social. E, como não poderia deixar de ser, atualizou também seus fiscais.

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Surge então, em plena Brasília, o novo guardião do equilíbrio econômico nacional. Não mais atento ao preço do arroz ou ao valor do combustível — esses já perderam a graça —, mas vigilante de um mercado mais sutil, mais sensível, mais… subjetivo.

O mercado dos afetos tarifados.

Ali, longe das planilhas do Banco Central e das atas do Copom, um deputado decide agir (AQUi para relembrar). Não por ideologia, não por projeto de lei, não por comissão especial. Mas por aquilo que move as grandes transformações: o desacordo no preço.

Há, nas imagens, um zelo técnico que impressiona. Um senso de justiça econômica que beira o heroísmo. O homem não grita — ele audita. Não discute — ele regula. Não reclama — ele intervém.

É o Estado brasileiro, finalmente, chegando onde nunca chegou.

Imagino, com certo entusiasmo institucional, os desdobramentos inevitáveis: a criação de um índice oficial — o IPAF (Índice de Preços do Afeto). Reuniões emergenciais para conter a volatilidade do setor. Economistas debatendo, em horário nobre, se houve abuso, reajuste indevido ou apenas desalinhamento contratual.

Tudo muito técnico. Tudo muito sério.

E o Brasil, esse velho cronista de si mesmo, observa. Entre o riso e o espanto, entre a vergonha e a familiaridade. Porque, no fundo, há algo de profundamente nacional nisso tudo.

Não resolvemos a inflação — mas seguimos fiscalizando. Não organizamos o sistema — mas questionamos o preço. Não planejamos o futuro — mas reagimos ao instante com uma convicção quase heroica.

Talvez seja esse o nosso verdadeiro índice de desenvolvimento: a capacidade de transformar qualquer constrangimento em narrativa, qualquer episódio em alegoria, qualquer quiprocó em política pública imaginária.

E assim seguimos.

Um país onde até os escândalos carregam uma certa vocação pedagógica. Onde sempre aparece alguém disposto a levantar a voz — ainda que no lugar errado, pelo motivo errado, mas com a intensidade certa.

No fim, resta uma dúvida sincera, quase técnica:

A inflação subiu… ou foi apenas o mercado se ajustando?


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